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Por Larissa Tavares

Quando estudei o conceito econômico de “Expectativas Racionais” no MBA, na disciplina de Macroeconomia, no ano passado, automaticamente associei os ensinamentos a situações do meu dia a dia pessoal. Economicamente, ajustes são feitos com base na análise da informação disponível, da racionalidade e da experiência adquirida, que é o que pressupõe este modelo econômico. Na vida pessoal, sabemos que esta realidade se aplica similarmente, na medida em que, normalmente, não deveríamos ignorar os fatos e acontecimentos vivenciados para decidir ou escolher qual caminho seguir.

Quando eu voltei a estudar e me deparar com a realidade da sala de aula, confesso que um frio na barriga e uma insegurança tomou conta de mim. Eu não sabia muito bem o que esperar e quem eu deveria ser naquele contexto, que há muito não vivenciava. Logo no 1º dia, durante a apresentação, me vi tímida e insegura, características que quem me conhece sabe, não fazem parte da minha personalidade.

Interessante que só depois de me perceber como os demais, entendi que eu não precisava ser nada além do que eu já era. Estava tudo bem simplesmente ser eu. Vivenciar a experiência da sala de aula com os colegas e perceber que todos estavam sujeitos aos erros e acertos do que constitui o ser humano tornou a minha experiência muito mais confortável e acolhedora comigo mesma. Conhecer o ambiente em que eu me encontrava e sentir aquelas experiências iniciais me moldaram pra tomar decisões, desde a escolha de grupos de trabalho até a liberdade para me sentir confortável em ser eu mesma.

Isso ocorre em todos os âmbitos da nossa vida e nos nossos relacionamentos. Se pararmos para refletir, perceberemos que esta teoria não se aplica somente ao modelo econômico. Estamos o tempo todo fazendo escolhas com base nas informações disponíveis e nas experiências vividas. Essas escolhas e decisões influenciam o curso da nossa vida futura justamente em função dessas expectativas.

Definitivamente não temos como prever o futuro. Mas, podemos intuir quais as chances de erros e acertos de uma determinada escolha, se considerarmos o contexto e as informações disponíveis. Mais do que isso, podemos sempre escolher ajustar o nosso modelo pessoal quando novas informações, que alterem o contexto da escolha atual, são apresentadas.

Quando decidi voltar para Uberlândia para trabalhar com a minha família, minha maior motivação era deixar um legado e perseguir um propósito, muito atrelado ao patrimônio que meus familiares haviam construído. Eu pensava em como poderia contribuir com tudo que tinha aprendido nos anos de trabalho em São Paulo, em uma multinacional. Entre erros e acertos e muita persistência, fui descobrindo o que se aplicava ou não na realidade de uma empresa familiar. Apesar de todas aquelas experiências anteriores terem sido parte da minha escola de formação profissional, as informações disponíveis daquela experiência presente eram limitadas, o que me deixavam confusa quanto às expectativas futuras, sem saber ao certo o caminho a trilhar.

Atualmente, muito se fala em vocação e propósito como norteadores das escolhas profissionais. São temas constantemente discutidos em palestras motivacionais, com apelos e promessas de felicidade no dia a dia do trabalho e da rotina. A verdade é que a realização profissional é uma tarefa árdua de batalha diária, que nos obriga a constantemente reavaliar o que queremos e quais os próximos passos para continuar evoluindo e alcançando o desenvolvimento pessoal.

Inúmeras vezes me questionei se o caminho escolhido, de voltar a trabalhar na empresa familiar, era o melhor para mim. E todas as vezes que eu decidi que sim, era, tive que me reinventar, me desdobrar, para fazer valer a pena aquela escolha de ficar. Se eu tivesse escolhido outras coisas, necessariamente aquilo teria sido pior ou errado? Tendo a crer que não. Seria simplesmente diferente, com outros desafios e outros contrapontos, mas não necessariamente ruim. Por isso, falar de vocação de forma tão determinística parece tão absoluto quanto impossível num contexto tão dinâmico quanto o que estamos vivendo hoje.

É claro que identificar aquilo que nos move, como um propósito maior, é aspecto primordial para o nosso desenvolvimento e para a realização profissional. Costumo defender a ideia de que devemos focar em fazer aquilo que sabemos fazer melhor. Entretanto, muitas vezes, não sabemos o que fazemos melhor. E não necessariamente identificar isso vai determinar a sua escolha de uma profissão ou trabalho em determinada empresa. Somos plurais nas nossas atividades diárias, que vão envolver um montão de rotinas que nem sempre englobam esse aspecto do profissional sublime, fazendo o que ama o tempo todo, imaginado.

E aí eu quero entrar em um outro ponto crucial dessa análise filosófica que está sendo a narrativa desse artigo descontraído. Só consegui quebrar as barreiras que me impediam de enxergar as minhas possibilidades e alcance no contexto da empresa familiar quando tive autonomia para decidir. O empoderamento humano, que pode e deve ser designado aos colegas de equipe e subordinados, constitui aspecto fundamental para o desenvolvimento profissional. Quando tive a responsabilidade nas mãos, e mais do que isso, quando me responsabilizei pelo meu próprio destino na minha organização e para o resultado dos meus objetivos pessoais, consegui escrever a minha própria história. Tendemos a responsabilizar o outro, o chefe, o cliente, a crise, o coronavírus, pelas dificuldades que encontramos para o nosso desenvolvimento, no anseio de que aquilo vá aliviar a carga de culpa que sentimos quando não conseguimos corresponder às nossas próprias expectativas.

Essa descoberta envolve incluir movimento nas nossas vidas. Nem sempre vamos acordar super motivados e empolgados pra alcançar nossos sonhos. Mas uma coisa é certa: só poderemos identificar qual o caminho a seguir se nos dedicarmos a avaliar nossas experiências, as informações disponíveis e se estivermos dispostos a criar movimento nas nossas vidas. A vida na inércia e na espera nos leva para trás.

Criar movimento inclui se arriscar. Se a gente não começar um dia, nunca vai chegar o momento em que vamos ter começado. Gosto de pensar em um exemplo que parece besta, mas que, hoje em dia, me causa alívio. Em 2013, quando eu comecei a malhar, saber malhar parecia algo muito distante. 7 anos depois, aqui estamos nós, eu entro em qualquer academia e consigo malhar, em qualquer lugar do mundo. Este projeto, por exemplo, de voltar a escrever, estava na gaveta há mais de 1 ano. Faltava coragem e sobrava medo. O que será que vão pensar? Será que alguém quer ler o que tenho a dizer? E mesmo enquanto escrevo agora, a dúvida insiste em me acompanhar.

E o que tudo isso tem a ver com o conceito de expectativas racionais? Bom, muitas vezes buscamos saber quem somos com base no que o outro espera que sejamos. Ou então, queremos projetar ser algo que não somos. Um duelo entre quem eu sou x quem eu quero ser x quem querem que eu seja. Redescobrir a Larissa da sala de aula, que na verdade é a mesma Larissa de qualquer outro lugar, me levou a entender que a pessoa que projetamos para o externo e o social tem muito mais a ver com as nossas inseguranças e com a nossa identificação conosco. Essa mesma Larissa, que é formada em Relações Internacionais, que trabalhou em Compras, que trabalhou com Projetos, agora quer mudar de novo: quer ser uma profissional de marketing. E a verdade é que, muitas vezes, eu não sei nem por onde começar. Mas, de novo, uma hora a gente tem que começar.

Encorajo todos vocês que me leram até aqui, a repensarem as escolhas e caminhos que os trouxeram até aqui. Muitas vezes, somos inclinados a pensar que não há alternativas, que uma vez feita uma escolha, ela é determinante para o nosso futuro. Todas as vezes que, de novo, duvidei das minhas escolhas e dos meus projetos, me permiti parar para repensar. Por isso, não acredito em escolhas profissionais tão absolutas. O mundo hoje é plural e dinâmico, assim como as profissões. Pode ser que um dia eu decida mudar. O que você está fazendo HOJE para caso um dia decida também mudar? Você vai ter opções?

Escolher pode ser uma tarefa extremamente difícil quando não há autoconhecimento. As decisões podem nos levar a caminhos mais fáceis ou dolorosos. Embora não haja uma escolha certa ou errada, a maneira como encaramos cada decisão da nossa vida é crucial para estabelecer as chances de sucesso em relação àquele caminho escolhido.
Assim como os agentes econômicos realizam seus ajustes com base nas expectativas racionais, faça os ajustes necessários para influenciar suas escolhas futuras de modo consciente.