Post Image

Desde a paralização das escolas no início da pandemia, o tema Educação a Distância tem tido grande repercussão no âmbito do ensino público. A continuidade das atividades escolares no modelo remoto apresenta inúmeras dificuldades, que evidenciam a desigualdade social no Brasil. Se por um lado, a paralisação provoca prejuízos imensuráveis, por outro, a viabilização de um ensino remoto e digital de qualidade na rede pública de ensino representa inúmeros desafios, causando discordâncias em diversas frentes. Um embate complexo e plural, como o Brasil.

Cabe reforçar a diferença entre o EAD, Ensino a Distância, e o ensino remoto. O EAD pressupõe toda uma didática de ensino voltada para o formato online, diferentemente do ensino remoto. Embora a comunidade acadêmica tenha estes parâmetros bem delimitados, neste artigo trataremos as 2 modalidades como um formato híbrido, considerando as necessidades de adaptação do ensino remoto e o contexto da pandemia.

Além dos aspectos estruturais, como a falta de acesso à internet, há outros obstáculos para a educação a distância na rede pública de ensino. Fatores sociais, como a evasão escolar, a violência doméstica e a baixa escolaridade de familiares, bem como a preparação dos professores, que não foram capacitados para adaptar os conteúdos programáticos para o formato online, são alguns pontos que precisam ser observados.

A falta de acesso a internet têm sido um dos maiores agravantes para a efetividade do ensino a distância para alunos da rede pública. Pesquisas apontam que cerca de 30% dos lares da área urbana e 60% dos lares de área rural não possuem internet. Além disso, nas classes mais baixas, cerca de 78% dos acessos a internet é feito pelo celular.

Apesar destas dificuldades, ferramentas tecnológicas para a educação e o EAD tem sido desenvolvidas buscando auxiliar o poder público com soluções modernas que propiciem a interatividade entre professores e alunos e possam contribuir para evitar a perda do ano letivo escolar. Este é o caso de algumas cidades que, na rede pública municipal, optaram por disponibilizar conteúdos para alunos via Portal do Cidadão ou aplicativos. Estas ferramentas possibilitam a troca de perguntas e respostas entre alunos e professores e por estarem disponíveis no aplicativo via smartphone, amenizam as dificuldades enfrentadas pelas famílias de baixa renda.

Ademais, a discussão envolvendo a digitalização de serviços e transformações digitais está no epicentro da pandemia. Embora seja possível identificar inúmeros desafios na implantação de um ensino remoto eficaz na rede pública, a preparação para o modelo de ensino híbrido, que combine o ensino presencial com o apoio de ferramentas online, é uma realidade cada vez mais próxima e urgente na sociedade como um todo.

E quando seria a hora certa de começar?

Para driblar as dificuldades e avançar na identificação das restrições, as cidades que optaram pelo EAD na rede pública municipal, estão distribuindo os materiais e conteúdos de forma impressa para os alunos que não possuem acesso a internet. Apesar de entender não ser o ideal em comparação com os outros recursos, questiono dentre as opções, qual a melhor alternativa.

Se avaliarmos os prejuízos causados pela paralisação da educação, é preciso considerar o valor social que a educação carrega, cujo papel é de extrema importância, na medida em que muitos dos alunos da rede pública vivem em situação de vulnerabilidade e a escola acaba suprindo tanto as necessidades mais básicas, como, por exemplo, prover parte da alimentação básica, por meio da merenda escolar, como, também, ser um local de proteção. Sendo assim, qual seria o papel da escola neste momento? Qual a relevância do contato entre alunos e professores, de forma online ou mesmo via WhatsApp, no contexto da vulnerabilidade social?

No âmbito da rede pública de ensino federal, as universidades federais têm sido alvo de debates com relação à implantação do EAD. Apenas 6 das 69 universidades federais haviam adotado o ensino a distância até maio. Novamente, a falta de acesso à internet configura fator primordial para a baixa adesão. Enquanto discutem as dificuldades e desigualdades, o tempo vai passando e, agora, inevitavelmente, soluções e adaptações para o ensino remoto precisam ser desenvolvidas.

Há de se considerar que esta postergação e paralisação do ensino para a mão de obra qualificada e especializada pode representar perdas potencialmente maiores para as famílias no longo prazo e para a sociedade. Alunos que estavam prestes a se formar, vão esperar até quando?

A rápida necessidade de adaptação dos conteúdos para o formato online e a falta de capacitação dos professores demonstram o despreparo da rede pública, especialmente, em relação à rede particular. Fora isso, os recursos da rede pública são escassos e os professores não dispõem dos equipamentos necessários para viabilizar um ensino remoto de qualidade.

Enquanto isso, alguns professores do ensino básico têm se desdobrado, disponibilizando tempo e recursos próprios em prol da continuidade, entendendo a importância de continuar oferecendo conteúdos aos alunos, mantendo certa interação com a turma e o vínculo social e fornecendo apoio para as diversas faixas etárias; mesmo que de forma paliativa, longe do ideal. Sem dúvidas, estas situações carregam níveis de estresse altíssimos para os professores, causadas entre outros motivos, pela falta de horários para atender às dúvidas dos pais, que enviam perguntas via WhatsApp, tornando a jornada diário do professor insustentável.

Por isso, é importante identificar quais ferramentas e soluções tecnológicas podem apoiar o poder público na implantação de um EAD mais completo, que atenda as necessidades de pais, alunos e professores, sem sobrecarregar, especificamente, os professores.

Nesse sentido, alguns programas de aceleração de startups e PMEs tem surgido para alavancar resultados, como o programa Força Tarefa Covid 19, da BrazilLab em conjunto com outros parceiros, que além de atuar na área da Educação, buscam fomentar tecnologias e conectar empresas ao governo, objetivando apoiar o poder público com soluções também nas áreas de digitalização, desburocratização e inclusão produtiva.

Por fim, o que nos reserva o futuro? Se realmente teremos um modelo híbrido a partir de agora, não estamos em tempo de rever e enfrentar as barreiras para viabilizar o ensino remoto? As desigualdades estão aí. Estão na quarentena, nos bairros periféricos, no acesso ao auxílio emergencial (via aplicativo), no sistema público de saúde. As desigualdades foram evidenciadas para as pessoas que não puderam parar, que não puderam se isolar, que não puderam trabalhar, que não puderam estudar…

A pandemia do coronavírus deflagrou as diferenças do nosso país em diversos setores. A falta de digitalização, como um todo, demonstrou nosso despreparo, fragilidade e, infelizmente, nossa condição de país “em desenvolvimento”. Mais uma vez, em um país tão vasto e plural, quem acaba sofrendo mais, são os mais pobres. No entanto, não vejo como uma paralisação completa e tão longa amenize as já tão acentuadas desigualdades.

Acredito que a tecnologia pode contribuir na identificação de soluções que representem respostas para as dificuldades do nosso país. Somente assim, poderemos caminhar rumo a modernização de escolas e universidades em todo o Brasil, bem como alavancar os resultados do ensino a partir de dados mais robustos, gestores e acadêmicos mais qualificados e treinados e alunos mais preparados para o futuro.

https://g1.globo.com/educacao/noticia/2020/05/14/so-6-das-69-universidades-federais-adotaram-ensino-a-distancia-apos-paralisacao-por-causa-da-covid-19.ghtml

https://g1.globo.com/educacao/noticia/2020/05/05/sem-internet-merenda-e-lugar-para-estudar-veja-obstaculos-do-ensino-a-distancia-na-rede-publica-durante-a-pandemia-de-covid-19.ghtml

https://forcatarefacovid19.brazillab.org.br/#programa

https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/especial-publicitario/prefeitura-de-varzea-paulista/noticia/2020/04/27/varzea-paulista-inova-no-ensino-a-distancia-para-alunos-da-rede-municipal.ghtml

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2020/03/31/coronavirus-escolas-publicas-estudam-alternativas-para-repor-aulas-particulares-aderem-ao-ensino-online-em-minas.ghtml