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Por Larissa Tavares

Sabe aqueles dias que você tem tanta coisa pra fazer que não sabe nem por onde começar e se sente a ponto de explodir? Sabe aqueles dias que você acorda e não tem vontade de fazer nada? Passa o dia esperando a hora de acabar. A mais simples tarefa te desanima profundamente. Você com certeza já vivenciou ou conhece alguém que tenha experimentado situações destes tipos.

Ambos os casos podem estar relacionados com ansiedade e ocorrem em momentos distintos da nossa vida. Inclusive, quando o acúmulo de estresse é demasiado, uma situação acaba levando a outra, como um ciclo de gatilhos e estímulos.

Ansiedade e as Mídias Sociais

Não há dúvidas de que a ansiedade tem sido um problema cada vez mais relevante em nossa sociedade e no nosso convívio, tanto no ambiente de trabalho como em casa. Todos conhecemos alguém que sofre com ansiedade, que se não identificada, pode ir se agravando e culminar em depressão ou, no âmbito do trabalho, na Síndrome Burnout. Me arrisco dizer que semanalmente ouço mais de 1 colega de trabalho ou amigo reportar algum tipo de ansiedade durante a semana (inclusive eu).

Diversos fatores podem provocar a ansiedade, como a genética, a bioquímica cerebral ou eventos estressantes. Porém, o uso excessivo de telas, smartphones e das redes sociais têm sido apontados como vilões para potencializar a ansiedade e a depressão. Um estudo da FGV de 2019, indica que 41% dos jovens brasileiros relatam sentimentos como angústia, tristeza ou ansiedade após o uso de redes sociais.

Novidades no feed, e-mails… as notificações no celular não param e sentimos que nunca chegaremos ao fim, resultando numa sensação de impotência pela impossibilidade de conseguimos acompanhar tudo que é disponibilizado na internet (o famoso FOMO – Fear Of Missing Out – medo de estar sempre perdendo algo). Somos inundados com conteúdos a todo momento. No caso da pandemia, por estarmos vivendo um momento histórico, recebemos notícias relacionados ao COVID-19 repetidamente, o que pode ser cansativo e agonizante.

De acordo com Sean Parker, Cofundador do Facebook, as plataformas digitais como Facebook e Instagram foram pensadas para consumir o máximo de tempo e atenção a partir de sensações de recompensa ligadas a impulsos neurais e a dopamina.

“O processo de construção desses aplicativos, o Facebook foi o primeiro deles, foi todo sobre ‘Como podemos consumir o máximo de tempo e atenção possíveis?’ E para isso a gente precisava dar a vocês um pouco de dopamina [neurotransmissor ligado a mecanismos de recompensa e às sensações de prazer] de vez em quando. Porque alguém curte ou comenta sua foto ou publicação, isso vai fazer você contribuir com mais conteúdo, e isso vai te dar mais curtidas e comentários. É uma validação social cíclica. Exatamente o tipo de coisa que um hacker como eu criaria, porque explora uma vulnerabilidade na psicologia humana. Os criadores – sou eu, o Mark [Zuckerberg], o Kevin Systrom no Instagram, todas essas pessoas – sacaram isso conscientemente. E fizemos tudo [as redes sociais] mesmo assim.”

Durante a quarentena, um movimento que foi perceptível nas redes foi o incentivo à alta produtividade durante o isolamento social. Embora muitos tenham posteriormente contestado esse posicionamento, trazendo mais realismo para os seguidores e fazendo memes em relação aos níveis de produtividade, no início da pandemia, parecia que sempre tínhamos que estar produzindo algo em casa: oficinas, lives, receitas, cursos gratuitos, palestras online, webinars… Devido às dificuldades desse momento de medo e incertezas, deveria ser esperado que ficássemos menos produtivos até nos adaptarmos a essa nova realidade. Porém, por pressão da sociedade, por vezes se nos sentíamos assim, vinha a culpa e a sensação de perda do controle.

Somado a isso, a maioria dos perfis que acompanhamos está sempre mostrando o seu melhor lado, a sua vida perfeita, com frases motivacionais e realidades bem diferentes da que estamos acostumados a vivenciar. Alguns pesquisadores já vêm alertando há anos para os prejuízos à saúde mental ocasionados pelo Instagram, cujo uso excessivo pode facilitar gatilhos de ansiedade e depressão. Na rede social, somos constantemente incentivados a nos comparar com o outro, aumentando a competição, sentimentos de inferioridade e baixa autoestima.  

Nos últimos tempos, o desenvolvimento de conteúdos digitais explodiu! Obviamente, do ponto de vista do acesso a informação e ao conhecimento, é fantástico perceber as vantagens da internet em nossas vidas. Precisamos reconhecer que o problema não está necessariamente relacionado aos recursos, e sim ao uso excessivo deles. Portanto, também devemos considerar os aspectos positivos do uso das redes sociais, pois além de a plataforma fomentar negócios na esfera comercial, as mídias sociais propiciam um maior senso de comunidade a partir do compartilhamento de informações e interesses comuns e promovem a interação humana, que se tornou muito mais virtual durante o isolamento social.

Algumas estratégias podem nos ajudar a combater o vício nas redes sociais, como desabilitar as notificações e desinstalar alguns apps, estabelecendo limites, mantendo-se presente na tarefa que está executando e exercitando a autoconsciência.

Ansiedade no ambiente de trabalho

No âmbito profissional, o estresse no ambiente de trabalho é gerado a partir dos mesmos tipos de estímulos, porém em contextos diferentes.

A ansiedade gerada por cada momento de frustração, seja pela não execução de uma determinada tarefa ou pela impossibilidade de alcançar o fim da lista, vai se acumulando, gerando ansiedade. E quando estamos ansiosos, nosso nível de produtividade cai consideravelmente. Nos sentimos cansados, distraídos e acabamos procrastinando mais do que o habitual, o que ocasiona culpa e sofrimento.

A Síndrome Burnout é ocasionada pelo acúmulo de estresse no trabalho e tem sido um tema muito comentado para a gestão de pessoas. Em 2019, a OMS incluiu o transtorno na Classificação Internacional de Doenças. Um estudo da ISMA-BR (International Stress Management Association) apontou que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem com a doença.

Em muitos ambientes de trabalho, se não houver uma atmosfera de equilíbrio e bem-estar entre os indivíduos, com respeito, feedback e comunicação, pode ser que haja situações de inveja, competição negativa, desigualdades na equipe e altos níveis de estresse, devido às pressões por resultados agressivos e eficiência na execução das tarefas.

Autoconsciência Emocional

Entretanto, não é sempre que vamos nos sentir bem e dispostos para ter um dia super produtivo e é importante saber disso e não se cobrar em excesso. Tá tudo bem ter um dia ou períodos ruins vez ou outra. Não precisamos produzir sempre mais. Desde que tenhamos claros os nossos objetivos, poderemos nos desenvolver e seguir em frente. Por isso, traçar planos e metas em relação aos seus objetivos é fundamental para se permitir ter os dias não tão bons assim, e ainda assim, cumprir com as entregas e resultados. Se nos observarmos e identificarmos um padrão de estresse que se torna repetitivo, é preciso repensar nossas ações, identificar gatilhos de estresse e ansiedade, e se necessário, pedir ajuda.  

E lembram dos perfis motivacionais do Instagram? Bom, acho que você já sabe que não precisa ser igual a ninguém, mas não custa lembrar que aquela realidade postada é bem diferente da vida real.

Profissionalmente, somos levados a crer que para sermos bons profissionais precisamos ser extremamente ágeis, eficientes e produtivos. Claro que estas são ótimas qualidades em um profissional. Mas há espaço para todos os perfis de profissionais comprometidos no mundo do trabalho. Nem sempre uma determinada posição vai requerer estes tipos de atributos. Se você é do tipo analítico, ótimo, especialize-se e foque em como usar a sua habilidade da melhor forma que você puder. Se você é do tipo pensador, ajude a sua empresa e repensar processos, use sua iniciativa, criando relacionamentos construtivos e inovando no contexto da sua posição.

Desde que você se conheça e saiba como trabalhar os seus pontos fracos e reforçar os seus pontos fortes, você poderá identificar os planos de ação apropriados para o seu autodesenvolvimento. A diversidade faz parte da nossa sociedade em todos os âmbitos. Não fomos feitos para sermos iguais. Por isso, não se compare com o seu colega, compare-se apenas com você mesmo, buscando alcançar os seus sonhos e objetivos. A sua melhor comparação é com você mesmo. Seja a sua melhor versão e você sempre terá espaço para crescer.

Referências

https://vejasp.abril.com.br/cidades/instagram-saude-mental-depressao-ansiedade/
https://www.nexojornal.com.br/servico/2018/01/26/V%C3%ADcio-em-celular-e-redes-sociais-Saiba-o-que-%C3%A9-e-como-fazer-um-detox-digital
https://www.techtudo.com.br/noticias/2019/10/redes-sociais-geram-ansiedade-e-depressao-em-jovens-brasileiros-diz-estudo.ghtml
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/04/06/Como-achar-o-equil%C3%ADbrio-no-uso-de-redes-sociais-na-pandemia
https://saude.abril.com.br/especiais/precisamos-falar-sobre-burnout/
https://super.abril.com.br/saude/oms-classifica-a-sindrome-de-burnout-como-doenca/

Sheilla at 4:58 pm, novembro 24, 2020 - Reply

Adorei seu post, a maioria de nós nos sentimos assim várias vezes no decorrer da nossa jornada de trabalho, reconhecer que não somos perfeitos as vezes é difícil porque existe o medo de não conseguirmos ser o projeto que gostaríamos alcançar.