Os privilégios da pandemia

Por Lucas Machado

Adoro o perfil do twitter @devscansados. Trata-se de um perfil sarcástico sobre o cotidiano do mundo de TI. Alguns minutos na timeline e conseguimos ler piadas sobre pressa, bugs, pressão por prazo, longas horas de trabalho, colegas de trabalho com pouca experiência, e é claro, imagens de tela de erros de software que chegaram a produção.

O @devscansados não é o único a expor as reclamações mais comuns da nossa profissão. O número de reclamações sobre “burnout” e síndrome de impostor são tantas que eu fico com a impressão que foram conceitos inventados pela área de TI. Outra, essa sim inventada pelos profissionais de TI, é a famosa FoMO (Fear of Missing Out) que é angústia/ansiedade derivada da constante pressão por atualização profissional. Também temos um número desproporcionalmente pequeno de mulheres e negros, o que certamente está relacionado ao racismo e machismo estruturais da nossa sociedade também na nossa profissão.

Nem tudo são trevas, a pandemia mostrou o quanto nossa profissão é privilegiada. Se você fizer uma rápida consulta em sua rede de relacionamento verá que os problemas que enfrentamos durante 2020 estão possivelmente fora do âmbito profissional. Somos um setor profissional muito adequado ao home office, muitos já o faziam antes da pandemia. Apesar da crise ter impactado fortemente um conjunto importante de empresas de TI (AirBnB, Gympass para citar algumas), o mercado de trabalho continua em expansão e os profissionais afetados por eventuais demissões estão conseguindo se realocar. Particularmente no caso brasileiro, a alta do dólar deixa ainda mais favorável o trabalho para empresas estrangeiras e a pandemia ter normalizado o home office torna o mercado potencial de empresas contratantes nessa modalidade ainda maior. Estou no mercado de TI há quase 20 anos, já vivi pelo menos 4 crises importantes (energia 2002, subprime 2007, fiscal/impeachment 2014-2016, Pandemia 2020) e em todas o setor de TI passou relativamente bem por elas.

Estamos em dezembro, aquele mês maravilhoso que nos enche de esperança de que em 30 dias 2021 resolverá todos os males que nos afligiram até 31/12. Crianças irão para a escola, reestabeleceremos o turismo, chega de lavar sacolas de supermercado. Provavelmente a pandemia não irá acabar em janeiro, mas eu fico feliz de perceber que o que mais me incomodou nesse ano estranho são coisas externas ao meu trabalho.

Apesar dos problemas existentes na área de TI, nós também somos líderes em reconhecer que eles existem e criar mecanismos para mitigá-los. Movimentos por inclusão e diversidade em TI não nasceram esse ano. O fato de debatermos abertamente as dificuldades psicológicas da profissão também gera consciência e ação. Meus votos são de que no próximo ano, possamos continuar a melhorar nosso ambiente de trabalho, que sejamos capazes de criar ambientes mais acolhedores e diversos, que consigamos dialogar com nossos stakeholders em prol de prazos mais adequados, que tenhamos maturidade (ou façamos terapia) para lidar com as pressões, mas que também possamos nos lembrar de nossos privilégios.

Viva a TI, e é claro, Feliz Natal

Lucas Machado
Ex colaborador da Sonner Sistemas de Informática. Hoje gerente de produto na AWS. Minhas opiniões são minhas e não refletem a visão dos meus empregadores.